Escolhas
Quando se veem rios por planícies, certo é que suas águas presentes não hão de cessar — a isso não se denota presente...
verbo em Latim que significa "caminhar adiante" (origem de "preâmbulo")
A arte é a arte. Penso que a tautologia ("amor é amor", "uma árvore é uma árvore"...) pode dar conta do significado que eu gostaria de tanger com o que pretendo aqui, e representa bem minha admiração pela redundância: pleonasmos, perfazer (quase) sempre o caminho mais longo, prolixidade, a demora.a Arte suscita algo àquele que a observa com pródiga demora.
o desenho é, possível e provavelmente, um estudo de Delacroix. ainda, ao mesmo tempo, a expressividade somente com as linhas e o fundo bege-amarronzado permite um aumento arrebatador da percepção da cena, seja qual for em Hamlet, não só pela ausência de componentes coloridos, multiformes, de pinceladas diferenciais, mas sobretudo pela tradução da angústia da pessoa ao chão e a perspectiva sutilmente grafados por linhas manuais, rabiscos que poderiam passar por rascunhos ou coisas pré-feitas noutros contextos (ou em todos eles). id est, a falta (de componentes) que ressalta linhas e cores ingênuas e lhes dá mais significado, portanto mais vida.
e, bem, eis Clarice:
« Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais. »
— Clarice Lispector
Aqui estão contos e textos em formato não usual (ensaios), por vezes bastante curtos, mas que condensam alguma reflexão central que pode falar ao coração. Ao menos, cada uma fala ao meu significados profundos e, por isso, ponho-os aqui para dividir, repartir.
Alguns textos são marcados como Declaração. Estes são altamente pessoais, de múltiplos tipos e escritos, essencialmente, para Deus. Fazem parte de uma obra chamada Declaração, um dos diademas de tudo o que já escrevi.
Quando se veem rios por planícies, certo é que suas águas presentes não hão de cessar — a isso não se denota presente...
Maiores e mais profundas prisões são as que o coração impõe ao próprio coração.
Tudo havia ficado em silêncio há dias, e ninguém intentava pronunciar nada além daquilo que fosse necessário à sobrevivência...
Pelo que seja o ar como parábola, e a terra como movimento no qual se dancem coisas antigas, mas não esquecidas...
Por caótico e adversos que sonhos possam cintilar, expressam o que jaz interior: nós mesmos. De um dia para o outro...
— Ora, caminhar sob as areias da orla do mar é singular. É como olhar aos azuis infinitos, deixando que por pouco ande meio-coberto pela areia, que pode parecer tão parca com relação ao mar...
As formigas sempre foram fiéis. Logo após o nascer do sol, as duas, por mais um dia, arrumaram todas as suas coisas para a longa caminhada...
A vozinha de Rute, ao menos Rutinha aos mais afáveis à alma, sempre se admirava de sua capacidade de encanto, e encanto não com certa cousa em especial, mas com qualquer uma...
Mas vi pessoas divagando, anunciando dizeres contra o nome do Senhor, as quais pretendiam raciocinar que a ideia de Deus existir proviria da fraqueza e necessidade humanas de completude, (...)
Por estas bandas, não se pronunciam coisas inexistentes: quer felicidades extraordinárias, quer fontes; quer oásis arrebatadores, quer sonhos. O Sol...
Recordações de coisas que existiam fazem-nas persistir, e então existir. Em um dia comum, pus-me a visitar certo amigo a quem não via há muito...
Os poemas, aqui, não têm uma linha temática única entre si e são, essencialmente, distribuídos de forma tão aleatória quanto a que os nossos pensamentos podem ter em nossa cabeça a cada dia. É preciso temperança para interpretar poemas — eu mesmo provavelmente desconheço os significados completos de todos os que escrevi.
Mas o choro que não é meu / O deserto a que não fui / Tanto me toca / Como se meu fosse / Minh’alma não se pode isentar / Minh’alma está a falar:...
No princípio te elegi / Como a mais bela gota / D'água sobre a rota rota...
Numa oração, ocorre-me finalmente que Deus é como o mar. / É como o infinito para tudo o que medimos; não há métricas...
escrever me mantém vivo, / ler me mantém vivo, / linguagem me mantém vivo...
em um mundo de / vendem-se maçãs...
Ao não se enxergar claramente / Atribuem-se quaisquer a quaisquer / Que, por sua vez, inculpados...
Parece impossível que se desate / O que não mais muda / A realidade afeta...
Muitos quereres / Constituem-me o coração / Em muitos viveres / Minha negligência e adoração...
Passado e futuro / Tolhem o presente / Que de todos é o único / Tempo que nós temos...
Um dia me assaltou uma indignação imensa contra o zeitgeist sobre o sexo na sociedade, contra a superficialidade com que se firmam e desfazem relações interpessoais (especialmente entre os mais jovens), enfim. Transcrevi-o de uma forma pouco (ou muito) sarcástica e alegórica, na tentativa de palpar isso que paira na mente de muitos.
LerReflexão também pessoal, também bíblica em torno da grande e muitas vezes silenciosa tempestade chamada solidão. Ela pode nos levar a naufragar quando de navegarmos sozinhos por muito tempo, mas há um porto seguro no qual podemos fixar nossos olhos. Que porto é esse, afinal?
LerCrônica escrita em meio à pandemia, próximo ao seu fim em 2021, para o jornal de estudantes da USP Ócios de Ofício. Sobre desabandono, catarse e cair-em-si a partir de uma vida em que muito se existe para pouco se viver, digamos, nos termos de Sêneca.
LerRegistro de um dia com crianças de uma comunidade local e amigos da ABU, trabalhando para nos alegrarmos naquela manhã junto com elas, em 2023.
LerReflexão escrita num dia aleatório, sem ocasiões sobre-especiais, sobre os rios-sufocados que nos cercam e que, possivelmente, estão mesmo dentro de nós.
LerSome texts I have written in English, only because it feels lighter and easier sometimes to gather thoughts and words through the Anglo-Saxon semiology.
Within most people, there is a shared feeling about how differently kids are growing up nowadays. We think of what used to be a rule during childhood for a happier life: fresh-air activities like riding a bicycle...
Thinking about Easter, nowadays, unfortunately leads the majority of us to think of chocolate, plus all capitalist marketing of uncountable "Easter" products (bunny, eggs, candies, etc.). All of that is completely superficial and indeed delusional...
Disponho, aqui, fotografias registradas por mim, todas em momentos não planejados. Simplesmente tive percepção de alguma beleza na imagem captada pelos meus olhos, e considerei de valor o registrá-las sob a luz a pixels ou a filme analógico. Não tenho expectativas de redenção de minha ignorância fotográfica com elas (não sei até hoje direito o que é o iso), mas apenas de expressar e dizer algo que, naquele instante, foi expresso e dito a mim pela própria cena de uma realidade mais ou menos, ao mesmo tempo, tangível e intangível.